quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Estimulação Cognitiva

Amigos,

Através do Jogo de Xadrez podemos fazer a "estimulação cognitiva", ou seja, instigar o nosso cérebro a raciocinar - que é o grande benefício, como os neurocientistas chamam, "plasticidade cerebral". Voltarei a este tema em um momento futuro.



A pergunta é: como conseguir esta estimulação com o Xadrez?

O professor, instrutor, reabilitador, deve levar em conta o perfil de seu aluno (poderia ser "paciente" ou "cliente").

Em primeiro lugar, uma avaliação do aluno; saber como andam as funções cognitivas, memória, atenção, raciocínio lógico e tomada de decisão.

Logo depois, elaborar junto ao aluno um plano de "reabilitação" com objetivos a serem atingidos.

As "aulas", em si, devem ser de maneira tal que crie um vínculo entre professor e aluno; isto é fundamental para a confiança, diálogo, troca de idéias e principalmente, motivação. Tudo passa pela motivação! O Aprendizado leva em conta o processo motivacional que coloca no topo a função cognitiva mais importante, a Atenção.
Para despertar a motivação, são necessários conteúdos recheados de história, de risos, de simpatia, de despertar a curiosidade. Um variado repertório de experiências é demais importante.
Com o Xadrez existe diversos tipos de intervenção que podem ser pontuadas no decorrer da aula; um enorme repertório está à disposição de um profissional experiente e dedicado. Este ponto podemos discutir mais tarde!

Finalmente, podemos reavaliar nosso aluno e descobrir se aconteceu o que foi combinado, se conseguimos, ao menos em parte, atingir os objetivos previamente estabelecidos.

Lembrando: conhecimento adquirido, aprendizagem, é saúde para o cérebro, levamos isto para toda a nossa vida.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Entrevista do Mequinho para CBN em 2007

Para quem ainda não tinha lido a entrevista abaixo, realizada pelo jornalista Carlos Eduardo Éboli, da CBN, em fevereiro de 2007.


Mequinho: Mas você sabe, não há nenhum caso em todo o esporte brasileiro, eu digo no esporte, não é só no xadrez, é no tênis, no futebol, no basquete, um jogador que tenha ficado 17 anos sem jogar o seu esporte e tenha voltado a ser o número 1 da seleção brasileira. Eu joguei já duas vezes como número 1 da seleção brasileira, e estou subindo agora cada vez mais. Por que estou subindo? Tenho 54 anos, mas eu faço esportes. Segundo um especialista que me faz a preparação física, eu tenho preparação física de 35 anos. Graças a Deus! Porque eu muitas vezes pedi a Deus, eu sou teólogo católico, Jesus me salvou através de oração de pessoas da Renovação Carismática Católica, que é o movimento que mais cresce dentro da igreja católica, exatamente porque Jesus tem curado muitos doentes, e aqui inclusive em Guarulhos eu trouxe 50 exemplares do meu livro, qualquer pessoa no Brasil inteiro pode comprar, está na sexta edição, “Como Jesus Cristo Salvou Minha Vida”, ed. Loyola, autor sou eu Mequinho. Este livro está para ser publicado agora na Itália, onde eu venci um torneio agora em junho, então eu fiquei estes anos todos sem jogar xadrez. Eu também me formei em teologia católica, em filosofia, e passei 17 anos sem jogar xadrez e voltei a ser o primeiro da seleção brasileira de xadrez.

Éboli: E pelo jeito voltou melhor do que antes, não é Mequinho, porque voltou com muita disposição, a gente percebe nas suas palavras, na sua voz, como os médicos falam, 54, mas com “corpinho” de 35, e mostrando que preparo físico é fundamental, mesmo no xadrez. As pessoas tem aquela imagem, o sujeito sentado, pensando, mão na cabeça, qual é a melhor jogada? Jogo de precisão, num tabuleiro, um confronto, desafio de mentes, mas estar bem fisicamente é fundamental também.
Mequinho: Porque quando eu estou descansado, esta doença que eu tenho, esta “miastenia gravis”, que é um mau contato entre os nervos e os músculos, de qualquer maneira então, teoricamente, qualquer esforço que eu faça, física ou mental, eu demoro um pouco mais de tempo que as demais pessoas pra me recuperar. Esta cura tem sido me dada de maneira milagrosa por Jesus. Em 1979 me davam apenas 15 dias de vida, porque eu não podia mastigar fazia um mês e meio. Esta doença pode atacar qualquer músculo do corpo, as pernas estavam fortemente atacadas, eu sem mastigar, só podia tomar alimentos líquidos, ia enfraquecendo de dia pra dia. Você não imagina! Quem lê o meu livro, quem tem um doente na família fica maravilhado, como eu estava tão mal, pra morrer, e agora eu vou pelo mundo inteiro, vou pra Espanha, para a Itália, ganho torneio de xadrez, faço esporte, e estou muito bem, não é? Então Jesus está me curando progressivamente, agora eu já estou 99,9% bom, então, na medida em que vou ficando cada vez melhor, eu vou jogando melhor xadrez.
Éboli: Vamos voltar lá no início, cinco anos de idade, foi quando você começou a jogar, não foi?
Mequinho: Exatamente, com sete anos eu já era vice-campeão da minha cidade onde eu jogava, no Rio Grande do Sul, mas jogando entre adultos. Atualmente no xadrez tem muitas categorias, sub-10, sub-12, sub-14, no meu tempo não era assim, há 40 anos atrás, ou era juvenil ou adulto, e eu jogava só com os adultos, com sete anos eu já era vice-campeão da cidade, que no caso era São Lourenço do Sul, jogando com adultos, com 12 anos eu já era campeão do Rio Grande do Sul.
Éboli: Porque você era um extra-série. Hoje, um enxadrista, mais novo, ele mesmo se revelando um extra-série, como você é, um mestre do xadrez, já jovem revelando este dom que você tem para esta modalidade, para este jogo, quer dizer uma pessoa mais jovem não pode se misturar com os adultos, não pode jogar numa categoria superior, mesmo tendo capacidade para tal?
Mequinho: Não, claro que pode. Mas exatamente eu jogava porque eu conseguia ganhar dos adultos. Então, esta cidade onde eu morava, era uma cidade relativamente pequena. Aí, um pouco depois, quando eu tinha oito anos de idade, a minha família já mudou para uma cidade maior, que era Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde lá havia um senhor que era tri-campeão gaúcho, e vice-campeão brasileiro. Aí eu demorei 3 anos para conseguir superá-lo, ele tinha sido vice-campeão brasileiro! Com 12 anos eu consegui derrota-lo, ser campeão do Rio Grande do Sul, com 13 anos eu consegui ser campeão brasileiro, a primeira vez que eu joguei o campeonato brasileiro! Mas quer dizer, campeonato brasileiro de todas as idades, absoluto. Depois com 15 anos eu fui campeão da América do Sul e mestre internacional; com 20 anos era grande mestre internacional, que é o maior título vitalício que a federação mundial dá. Acima de mestre e grande mestre internacional, só tem o campeão do mundo, mas não é um título vitalício, quer dizer ele pode ganhar hoje, daqui a um ano, daqui a meio ano, daqui a dois anos ele pode perder. O título de grande mestre internacional é o maior título que a pessoa não perde nunca, é vitalício.
Éboli: Em 1978, Mequinho, você atingiu a pontuação de terceiro melhor do planeta no xadrez, atrás apenas do Korchnoi e do Karpov... O que você lembra desta época e destes dois jogadores?
Mequinho: Eu era o melhor jogador fora da Rússia, os dois eram russos, então eu estava no auge, a doença começou um ano antes, em 1977, aí eu fui caindo, fui caindo também porque houve uma inflação muito grande no ranking da federação mundial. No xadrez chama-se “rating”, então em determinado momento, a federação mundial deu 100 pontos para as mulheres, e então isso inflacionou muito o mercado, se não tivesse havido esta inflação eu ainda estaria entre os melhores do mundo, quer dizer, não sei bem que número, eu estaria entre os 40, os 50, mas eu estou subindo rapidamente agora. Basta eu jogar torneios internacionais. Eu estou jogando cada vez melhor. Nos últimos 5 torneios internacionais que eu joguei, eu perdi só uma partida, entendeu? Na realidade eu sou muito católico, quando eu começo a ficar mal na partida, eu começo a pedir a Jesus e a Nossa Senhora que me salvem, e Jesus fica com pena de mim, que ele sabe que eu gosto muito pouco de perder, tenho horror a perder, e estou dizendo que em cinco torneios internacionais, foram em São Paulo, a zona sul-americana do Brasil (Brasil, Peru e Bolívia), depois um torneio internacional em Caxias do Sul, outro na Itália, outro na Espanha, e outro agora no Paraná, em Guarapuava, em 5 torneios internacionais, joguei 15 partidas com grande-mestres internacionais, eu só perdi uma partida, é uma coisa maravilhosa!
Eboli: Quantas vezes você enfrentou o Karpov?
Mequinho: Karpov, eu sempre saí mal com ele, só empatei uma com ele, porque eu joguei, a primeira, eu não era Grande Mestre, com ele eu não tenho bom “score”. Por exemplo, eu já ganhei duas vezes de um outro ex-campeão do mundo, e já ganhei uma vez também de um outro ex-campeão do mundo, esse outro já morreu, o Miguel Tal, que é considerado um tremendo gênio do xadrez, ele sacrificava as peças, fazia combinações, ataques devastadores, e a única que eu joguei com ele eu ganhei. Até foi uma pena, como ele já morreu, ele jogou comigo e disse: “Joguei com Mequinho, perdi, mas espero que esta partida foi a primeira, e que não seja a última”, mas, infelizmente foi também a última, pois ele morreu.
Éboli: Com Karpov era complicado, mesmo você solicitando a ajudinha divina ...
Mequinho: Não, porque quando eu joguei com Karpov eu não era religioso como eu sou hoje. Foi por isso, entendeu? Quando eu joguei com Karpov, eu não era..., eu me converti depois que fiquei doente. Na realidade, de todas as partidas que eu joguei com Karpov, só a última é que eu era religioso, entendeu? Quando eu voltei, no ano 2000, você pensa bem, em qualquer esporte, não precisa nem ser xadrez, um atleta que fica dezessete anos sem jogar o seu esporte, se recente. Então no ano 2000, 2001, 2002, eu não estava ainda a todo vapor, eu me recentia daqueles anos todos, eu parado. Agora eu estou indo cada vez mais com mais vigor. Por exemplo, o Karpov veio pra cá jogar uma simultânea, no Brasil, no Clube de Xadrez São Paulo, faz 1 ou 2 anos atrás, ele jogou contra 20 jogadores, e perdeu uma partida, empatou algumas, parece que empatou 4 e ganhou o resto, 15. E eu não, eu no Brasil, há 30 anos eu não perco nenhuma partida em simultânea.
Éboli: eu quero saber então se ao menos um destes 20 jogadores que estarão com você, fazendo esta simultânea, se alguém vai ter a capacidade de derrubar, de quebrar esta seqüência brilhante do Mequinho...
Mequinho: Não, nem fale, nem fale nisto! Eu estou há 30 anos sem perder nenhuma partida. Teve uma vez em Cuiabá, que eu me distraí... Você sabe jogar xadrez, não sabe? Eu perdi um cavalo...Eu tinha só dois peões, mas eu estava totalmente perdido, eu me distraí.Eu pensei que a simultânea era mais fraca... E, em determinado momento eu me distraí.Aí as moças ficaram rezando todo tempo, moças católicas da Renovação Carismática Católica, eu disse pra elas, nem mais o campeão do mundo salva...Só Jesus. Aí elas disseram, nós vamos ficar todo o tempo rezando. Aí um monte de gente aglomerado na mesa que eu ia perder, e por azar meu era o melhor jogador lá do Mato Grosso. Aí eles rezaram, rezaram.Eu fiquei toda partida perdido, e na última hora, no último momento, Jesus deu um jeito, eu consegui empatar a partida, quase que milagrosamente. Milagrosamente! Mas realmente, eu estou há 30 anos sem perder nenhuma partida em simultânea no Brasil, e espero ainda ficar muitos anos.
Éboli: Legal, Mequinho, obrigado pela sua participação. Sucesso aí neste evento em Guarulhos, você jogando simultaneamente contra estes 20 jogadores. Muito obrigado. Bom saber que você está bem, voz firme, seguindo nesta carreira brilhante.
Mequinho: Muito obrigado, e eu quero o apoio de todos os brasileiros, e de vocês da imprensa, porque eu tenho chance de voltar a ser um dos melhores do mundo , e isso vai acontecer, com a ajuda de Deus, mas eu tenho chance até mesmo de ser campeão do mundo. O Anand na Índia, ele foi campeão do mundo, porque lá na Índia, todo mundo o apóia. Ele é um herói nacional, destaque em toda imprensa, em todos os meios. É preciso aqui no Brasil eu ter este apoio, entendeu? É muito importante pra mim, muito importante. Obrigado e foi um prazer falar com você e com os ouvintes da rádio, tá bom? Muito obrigado!
Éboli: Muito bem, eu conversei com Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, um dos maiores enxadristas do mundo, e ele é brasileiro, hein ?
Contato: leopasq10@yahoo.com.br

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Xadrez e Reabilitação Neuropsicológica


(ilustração: "Neurônio" - Bruna Paciornik - EIBSG)

Amigos,

Cada vez mais o Xadrez tem sido usado como ferramenta de desenvolvimento e de reabilitação, de crianças e adultos, em questões neuropsicológicas.

Pesquisando no site de publicações científicas, PUBMED, descobri dois trabalhos da pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da USP, a Priscila Dib. Seus artigos se referem a buscas de alternativas de reabilitação neuropsicológica das Funções Executivas (FE). Parte nobre de nosso cérebro, o cortéx pré-frontal, local de redes neuronais que, segundo importantes pesquisadores (Lezak, Miyake, Diamond), é responsável por, principalmente, Volição, Planejamento, Flexibilidade, Inibição e Memória de Trabalho, as chamadas FE.

A Metacognição, onde o paciente verbaliza consigo mesmo (com ajuda de intervenções por parte do terapeuta) as estratégias e caminhos de suas ações, para que ele próprio tenha consciência de suas atitudes e seja o protagonista de suas mudanças, é inerente ao próprio aprendizado e desenvolvimento das habilidades no Jogo de Xadrez. Por que não usar desta técnica em reabilitação, fazer com que o paciente compreenda suas próprias decisões, estratégias?

Segundo a pesquisadora, “os jogos podem promover e exercer grandes mudanças em seus participantes, fazendo associações com a vida real e não com experiências ou materiais artificiais”. A interação com adversários faz com que não apenas o cognitivo seja estimulado, mas também em aspectos subjetivos – as nossas emoções.

Os primeiros resultados destas pesquisas usando o Jogo de Xadrez, com dependentes de substâncias (cocaína) mostrou melhora na Memória de Trabalho e Inibição (impulsividade).

Novos estudos precisam ser realizados para comprovar esta nova ferramenta da neuropsicologia, o Xadrez!

Próximo post: continuação sobre as pesquisas no Instituto de Psiquiatria da USP – IPq FMUSP

Para aprender Neusopsicologia: CDN - Unifesp


Referências: Neuropsychological Rehabilitation of Executive Functions: Challenges and Perspectives; Priscila Dib Gonçalves, Mariella Onetto, Gabriela Sendoya, Cristine Lacet, Luciana Monteiro, Paulo Jannuzzi Cunha; Journal of Behavioral and Brain Sience, 2014; 




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Neurociências e o Xadrez

Amigos,
As pesquisas com neurociências vem avançando muito. Estudos de neuro-imagem, ressonância magnética, são recentes. E os dados das pesquisas sobre o desenvolvimento cerebral ainda estão evoluindo.
Ao nascer, o ser humano já nasce com uma quantidade de neurônios maior do que quando terá em uma idade adulta. Até os 2 anos de vida, atingimos nossa capacidade máxima de densidade neuronal no lobo frontal, depois ela vai diminuindo.  A redução no número de sinapses no lobo frontal pode representar um “refinamento qualitativo” na capacidade funcional dos neurônios.
Porém, o importante é o que acontece com os neurônios neste momento: suas conexões, o crescimento da arborização (dendritos) e suas ligações axônicas. Posteriormente, com a conexão de neurônios mais distantes fisicamente entre si, a mielinização.
Esta fase importantíssima é a do seu desenvolvimento, da linguagem, do sistema motor.  As interferências Culturais e Ambientais estão diretamente ligadas ao comportamento. Uma boa alimentação, um bom ambiente familiar, mas também estímulos cognitivos são fatores determinantes.
O período de maior desenvolvimento das Funções Executivas, aquelas responsáveis por planejamento, inibição, flexibilidade e a memória de trabalho está entre os 6 e 8 anos de idade. Aos 10 anos elas já conseguem atingir o nível dos adultos quanto a performance em testes (Wisconsin), mas no teste de fluência verbal só o conseguem aos 17, 18 anos. Aos 14 anos os lobos frontais se desenvolvem de forma estável até os 45 anos, mas ainda em pleno desenvolvimento!
O desenvolvimento da linguagem participa em muitos processos mentais elevados, como o do planejamento, resolução de problemas, abstração. A linguagem será a grande intermediadora nas habilidades cognitivas.
Estimular a criança no desenvolvimento dessas Funções Executivas (FE) é o alvo que devemos prestar atenção.  Muitos trabalhos estão sendo feitos em estimular as FE, e uma das ferramentas importantes é o Xadrez.
Se formos pensar a respeito, planejamento e flexibilidade, a inibição de nossos impulsos em fazer jogadas precipitadas e a enorme utilização de nossa memória de trabalho para a “visualização” e a comparação de inúmeras variantes são essenciais para se jogar bem Xadrez. Recomendo a leitura do livro “Uma Questão de Caráter”, de Paul Tough, que traz um capítulo inteiro sobre o uso do Xadrez nas escolas dos Estados Unidos.

A plasticidade do cérebro, ou seja, a sua capacidade de se modificar e reorganizar, é para a vida toda. Desenvolvimento e Maturação; Aprendizado e Memória; Reabilitação Neuropsicológica devido a lesões; em todos estes casos, é possível utilizarmos da ferramenta Xadrez, desde que se tenha um objetivo a ser alcançado e usá-lo de maneira adequada, estimulando de forma positiva com experiências enriquecedoras.
Quando temos que tomar decisões, criar vínculos, empatia, inibir a satisfação imediata das nossas vontades, estamos falando das Funções Executivas “quentes”, aquelas que envolvem as emoções (lobo frontal conectado com o núcleo caudado e amigdala), onde as consequências das decisões que tomamos aparecem. No jogo de xadrez, as consequências de nossas decisões aparecem ao final da partida; decisões tomadas sem uma análise cuidadosa podem gerar a perda da partida, deixando o jogador frustrado.
Treinar uma criança com problemas de xeque-mate em 1 lance, por exemplo, estamos exercitando puramente o cognitivo, a análise, a busca, a flexibilização de ideias. Porém, quando se joga uma partida e se coloca em prática o que se aprende, é posta à prova as emoções, as decisões influenciadas por sentimentos. As consequências não demoram à acontecer!
Vou continuar com o tema Reabilitação Cognitiva no próximo post.

Até lá!

domingo, 7 de julho de 2013

A Discalculia e o Xadrez

Amigos,

A discalculia, bem simploriamente, é a dificuldade com a matemática. A discalculia pura, sem outros distúrbios (como a dislexia), afeta entre 0,5 a 2% da população mundial segundo pesquisas dos neurocientistas do assunto. Acompanhada de outras dificuldades pode chegar a 6%!!
No milenar jogo de Xadrez temos uma atividade lúdica que envolve diversas áreas do cérebro: memória (lobo temporal dominante, hipocampo, neo córtex), funções executivas (lóbos frontais) pensamento lógico-matemático, atenção e imaginação; e também codificação e registro de problemas (lobo frontal esquerdo) e evocação (lobo frontal esquerdo).
Sua relevante importância pedagógica envolve a sociabilização, memória, raciocínio e auto-estima.
Os jogadores de xadrez estão constantemente analisando, criando estratégias, questionando, enfrentando outros pontos de vista que fazem compreender seus limites, portanto tornando-se flexível e compreendendo a reversibilidade de posturas e pensamentos.
Durante uma partida de xadrez os jogadores enfrentam constantes desafios lógico-matemáticos, como os de comparação de quantidades, cálculos de jogadas, análise e memória, tudo isso de forma simbólica, pois o que se está manipulando são apenas símbolos.
Eu tenho dado muitas aulas de xadrez observando os alunos, na sua capacidade de calcular, no que se refere às trocas de peças (aritmética - capturas), nas questões geométricas (diagonais, horizontais, verticais, coordenadas), álgebra (as figuras representam valores relativos). A visão espacial, observar todo o tabuleiro, a lógica, a abstração, tudo isso faz parte de se jogar xadrez.
A atividade lúdica do jogo, portanto, faz com que sejam praticadas todas estas disciplinas, juntas, sem que o aluno perceba. Os resultados começam a aparecer após alguns meses de exercícios constantes. Exercícios como xeque-mate em um lance, de tática, de xadrez reverso dentre outros, além é claro da partida em si, são todos mecanismos ótimos e as intervenções do professor conduzem a aprendizagem.
Neurologicamente, seria treinar novas vias cerebrais, fortalecer sinapses, para, pelo menos, atenuar essa dificuldade.
Eu lembro de uma aluninha que tinha uma dificuldade enorme com a lógica, o cálculo simples (tipo, três mais quatro). Após algumas aulas, começamos a usar como tabuleiro, o piso do Clube de Xadrez de Curitiba e caminhamos pelas diagonais, usamos o corpo como se fossemos peças. Após um tempo, percebi que ela havia melhorado. Ela começou a ter maior apoio da escola, também.
O importante foi que eu percebi, através do xadrez, que ela possuía aquela dificuldade e começamos a fazer um trabalho mais específico.
         

sábado, 1 de setembro de 2012

As Aulas de Xadrez e o Pensamento Crítico

Amigos,

     Nas minhas aulas de xadrez eu procuro, além da pura técnica, instigar os meus alunos a pensar e repensar, a criticar, enfim, em tentar enxergar sob um ângulo diferente as coisas do nosso dia-a-dia.

     Em meio a uma das minhas aulas, a aluna, muito crítica, que não cansava de me questionar (toda hora era "por quê isso", "por quê aquilo"), saiu uma comparação interessante, vinda de duas imagens.

     Na primeira, observamos a foto de uma empresa de telemarketing, onde os funcionários se acotovelam , lado a lado (um ex-colega comparava com um galinheiro), sempre de olho na telinha do monitor. Imediatamente me veio a lembrança o filme de Charlie Chaplin , "Tempos Modernos".


     É interessante como essa imagem expressa o momento atual do "Ser Humano", envolto a tecnologia dos computadores, internet, uma das maiores revoluções da história, pois as comunicações se expandiram de forma impensável, revolucionando costumes, culturas, trabalho, lazer, etc.

     Na outra imagem, a mesma "modernidade", a tecnologia de ponta da época, e também o mesmo "Ser Humano", nesta, feito uma engrenagem, a serviço do "bem de consumo".


      Não basta estudar, aprender, saber. O Xadrez é um dos mais valiosos instrumentos da Humanidade, para ensinar a pensar, refletir, analisar, sintetizar e até mesmo, julgar.

     E é essa a reflexão que quero deixar aqui aos meus amigos professores em geral.


sábado, 25 de agosto de 2012

O Arquiteto das Peças de Xadrez

        Caros Amigos,

     Nas últimas férias de julho, conheci um jovem senhor, arquiteto, que confeccionou suas próprias peças de xadrez, há mais de 40 anos, com porcas, parafusos, arruelas etc. 
     Eu tinha resolvido fazer uma pequena aventura, viajar sem destino, e aproveitar para descansar e meditar um pouco. Mas não é que, logo ao chegar na cidade, a procura de um lugar diferente, ouvi o senhor que estava ao meu lado dizendo das águas limpas e dos pássaros que cantarolavam o dia inteiro em sua pousada? Bem, puxei conversa e ele me levou até lá. Me disse que normalmente a pousada é frequentada por casais ou famílias com filhos. 
     A primeira coisa que notei quando chegamos foi um tabuleiro de xadrez, bem antigo e de madeira, encostado perto da televisão. Em seguida já fiz a pergunta, "joga xadrez"?




     O "seu" Ricardo, dono da Pousada "Toca das Maritacas", em Piracaia, São Paulo, pertinho de Bragança Paulista, me contou que gostava muito de xadrez, que aprendera com o pai, com quem jogava frequentemente. Ele lembrou as palavras de seu pai: "Ricardo, pratique o xadrez para exercitar os seus pensamentos, encontrar novos amigos, se divertir". "No xadrez existe alguma coisa mágica que lhe trará bons momentos de inspiração, pois enquanto joga, sua mente trabalha com alguns aspectos do seu inconsciente e o ajudarão a resolver os problemas do cotidiano".   




     Como todo arquiteto recém-formado que quer inventar alguma coisa nova, um estilo novo, pensou no jogo de xadrez. Comprou as ferragens, montou as peças e mandou cromá-las. Com muito orgulho, me mostrou sua criação, guardada com todo carinho.

     Seguiu-se uma longa história. Ele me contou de que um dia, quarenta anos atrás, passeando pelo  centro de São Paulo, encontrou no chão um parafuso e uma porca atarraxados de forma peculiar. Guardou aquelas peças no bolso e continuou caminhando. Em seguida se deparou com uma porta quadriculada em preto e branco de um elevador. Tratava-se do Clube de Xadrez de São Paulo. 
     Resolveu subir, lembrando do velho pai e de seus sábios conselhos com relação ao jogo de xadrez. Se deparou com algumas mesas, uma com um senhor que aguardava um adversário para jogar umas partidas.
     O "seu" Ricardo se aproximou e resolveu arriscar uma partida. Perdeu duas em seguida muito rapidamente, mas ouviu do oponente sobre  as tardes que passava prazerosamente no Clube. 
     Num movimento involuntário, o "seu" Ricardo bateu com a mão no bolso e lembrou daquele parafuso. A ideia foi imediata: confeccionaria um jogo de peças com aquele tipo de material. Agradeceu ao seu adversário, saindo em seguida a procura de uma casa de ferragens.



            Na casa de ferragens, enquanto aguardava o pedido que fizera ao vendedor da loja, deparou-se com um anúncio de jornal indicando um terreno a venda: quem diria, aquele pedaço de terra se transformaria em sua futura pousada!
              E querem mais? Pois não é que a moça que queria vender aquele pedaço de terra seria sua futura esposa? Desde então, o "seu" Ricardo, que não voltou mais ao Clube de Xadrez, nem confeccionou mais peças, apenas deixa embaixo do seu balcão na pousada, duas sacolinhas em couro e tecido, e nelas suas peças de xadrez da sorte. Me confidenciou também que muita gente que por ali passou e que jogou com aquelas peças, acabou voltando inúmeras vezes para conseguir momentos de tranquilidade e inspiração na sua pousada.

      O Xadrez não é só um jogo. É uma sábia invenção humana, que permite apreciarmos em diversas formas de manifestação, artística e cultural, científica. Cabe a nós, amantes do xadrez, darmos a oportunidade de mostrar esse outro lado para as pessoas, para que o jogo-ciência-esporte-arte continue trazendo desafios, sonhos, lazer, cultura. O xadrez é uma ferramenta para todas as idades e todos os gostos, só precisamos despertá-la! 


     Passei boas horas com o "seu" Ricardo. Me contou muito da São Paulo antiga, de seus trabalhos, de seus estudos no Rio de Janeiro, de suas aventuras e, claro, das maritacas que toda manhã o despertavam.

        Como diria o lema do Xadrez Postal Brasileiro: "leva o xadrez, traz o amigo".