Dedicado aos meus amigos e inimigos enxadristas, verdadeiros aventureiros, amantes da liberdade.
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
sábado, 17 de agosto de 2019
XADREZ TERAPÊUTICO
O
Jogo de Xadrez (JX) se tornou uma ferramenta para além do lazer e esporte. Suas
aplicações com crianças especiais ou com dificuldades de aprendizagem, terapia
e reabilitação cognitiva para dependentes químicos ou portadores de
esquizofrenia, idosos e mesmo adultos que querem prevenção da perda cognitiva,
têm sido utilizadas em maior ou menor escala, com resultados favoráveis.
O
professor-terapeuta utiliza o JX de modo a conduzir um trabalho específico
voltado a beneficiar disfunções de seus “alunos-pacientes”, questionando
jogadas impulsivas, perguntando sobre correlações com momentos da vida,
buscando a realidade de situações presentes. Sendo assim, sabe conciliar as
atitudes, movimentos e reflexões que acontecem diante do tabuleiro de xadrez.
Para
o dependente químico, compara o lance impulsivo no jogo com a aceitação rápida
de uma droga a ele oferecida; para o paciente autista consegue uma comunicação
através da interação com os movimentos das peças; para um paciente com
transtorno de déficit de atenção propõe desafios de xeque-mate que exigem seu
empenho e sua atenção. E assim se utiliza de seus recursos criativos e voltados
às especificidades de cada aluno-paciente através do JX.
Os
alunos-pacientes que vem para consulta esperam por resultados. As provas que o
terapeuta pode fornecer são qualitativas, pois os próprios familiares, e até
mesmo o aluno-paciente, podem avaliar por si mesmos.
O
aluno-paciente que recebe a intervenção para o seu tratamento, faz associações
do xadrez com a vida. Por exemplo, o paciente dependente químico associa o
lance executado no tabuleiro, de forma impulsiva, com o aceite imediato da
oferta da droga da qual ele procurava se afastar. Se tivesse observado,
analisado e calculado as consequências de seu lance no tabuleiro, poderia ter
evitado a perda da sua Dama? Esta associação entre o JX e a vida cotidiana
passa a fazer parte dos pensamentos do sujeito. Simetricamente, o sujeito pode
recusar este pensamento, se aproximando de outras associações e de outros
estímulos que lhe são mais importantes. O contexto das situações liga
associações muitas vezes inesperadas.
As
provas sobre os benefícios da prática do JX como terapia provém dos artigos
científicos e de resultados com pacientes que já estiveram em tratamento.
Nos
próximos posts relataremos as intervenções realizadas durante as aulas de
xadrez.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Estimulação Cognitiva II
A Estimulação Cognitiva
com o jogo de xadrez é um processo que acontece naturalmente.
Vejamos: enquanto se
disputa uma partida, a nossa atenção se envolve em resolver os inúmeros
problemas que surgem a cada lance do jogo. Nossa visão percorre o tabuleiro
buscando as movimentações das peças. O raciocínio lógico é ativado para que o
lance seja coerente, ou seja, o movimento da peça dentro das regras
estabelecidas. O raciocínio abstrato também entra em cena, pois temos que
imaginar o lance, a posição final após o nosso movimento, e as possíveis
reações do nosso adversário.
A memória de trabalho
(working memory) é super ativada; muita da nossa energia é aplicada ao jogo. O
desgaste deste trabalho árduo do nosso cérebro traz, por consequência, cansaço.
Talvez seja por isso que muitas pessoas considerem o xadrez um jogo difícil,
por saberem (e já terem experimentado) este desgaste.
Continuar com a
estimulação, digamos, uma hora por dia, já é um treino excelente para as nossas
funções cognitivas e, portanto, trazem um benefício enorme para a nossa saúde
mental!
Aliás, saber um pouco
mais de saúde mental e como um profissional pode ajudar a beneficiar o nosso cérebro,
pode ser pesquisado neste link:
Eu recomendo
fortemente uma leitura atenta, que também é uma grande estimulação cognitiva!
Xadrez é Poesia!
XADREZ
Jorge Luis Borges
I
Em seu grave e longínquo lugar, os jogadores
regem as lentas peças. O tabuleiro
os detém até a aurora em seu severo
âmbito, onde se odeiam duas cores.
De dentro irradiam mágicos rigores.
As formas: Torre homérica, ligeiro
Cavalo, armada Dama, derradeiro Rei
oblíquo Bispo e Peões agressivos.
Quando os jogadores houverem ido,
Quando o tempo os haver consumido,
Certamente não haverá cessado o rito.
No Oriente se iniciou esta guerra
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como no outro, este jogo é infinito.
II
Tênue Rei, enviesado Bispo, encarniçada
Dama, Torre direta e Peão ladino
sobre o negro e o branco do caminho
buscam e travam sua batalha armada.
Não sabem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino.
Não sabem que um rigor adamantino
sujeita seu arbítrio e a sua jornada.
Também o jogador é prisioneiro
(a sentença é de Omar*) de outro tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.
Deus move o jogador, e este a peça.
Que Deus atrás de Deus a trama começa
de pó e tempo e sonho e agonias?
*Omar Khayyamm
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Estimulação Cognitiva
Amigos,
Através do Jogo de Xadrez podemos fazer a "estimulação cognitiva", ou seja, instigar o nosso cérebro a raciocinar - que é o grande benefício, como os neurocientistas chamam, "plasticidade cerebral". Voltarei a este tema em um momento futuro.
A pergunta é: como conseguir esta estimulação com o Xadrez?
O professor, instrutor, reabilitador, deve levar em conta o perfil de seu aluno (poderia ser "paciente" ou "cliente").
Em primeiro lugar, uma avaliação do aluno; saber como andam as funções cognitivas, memória, atenção, raciocínio lógico e tomada de decisão.
Logo depois, elaborar junto ao aluno um plano de "reabilitação" com objetivos a serem atingidos.
As "aulas", em si, devem ser de maneira tal que crie um vínculo entre professor e aluno; isto é fundamental para a confiança, diálogo, troca de idéias e principalmente, motivação. Tudo passa pela motivação! O Aprendizado leva em conta o processo motivacional que coloca no topo a função cognitiva mais importante, a Atenção.
Para despertar a motivação, são necessários conteúdos recheados de história, de risos, de simpatia, de despertar a curiosidade. Um variado repertório de experiências é demais importante.
Com o Xadrez existe diversos tipos de intervenção que podem ser pontuadas no decorrer da aula; um enorme repertório está à disposição de um profissional experiente e dedicado. Este ponto podemos discutir mais tarde!
Finalmente, podemos reavaliar nosso aluno e descobrir se aconteceu o que foi combinado, se conseguimos, ao menos em parte, atingir os objetivos previamente estabelecidos.
Lembrando: conhecimento adquirido, aprendizagem, é saúde para o cérebro, levamos isto para toda a nossa vida.
Através do Jogo de Xadrez podemos fazer a "estimulação cognitiva", ou seja, instigar o nosso cérebro a raciocinar - que é o grande benefício, como os neurocientistas chamam, "plasticidade cerebral". Voltarei a este tema em um momento futuro.
A pergunta é: como conseguir esta estimulação com o Xadrez?
O professor, instrutor, reabilitador, deve levar em conta o perfil de seu aluno (poderia ser "paciente" ou "cliente").
Em primeiro lugar, uma avaliação do aluno; saber como andam as funções cognitivas, memória, atenção, raciocínio lógico e tomada de decisão.
Logo depois, elaborar junto ao aluno um plano de "reabilitação" com objetivos a serem atingidos.
As "aulas", em si, devem ser de maneira tal que crie um vínculo entre professor e aluno; isto é fundamental para a confiança, diálogo, troca de idéias e principalmente, motivação. Tudo passa pela motivação! O Aprendizado leva em conta o processo motivacional que coloca no topo a função cognitiva mais importante, a Atenção.
Para despertar a motivação, são necessários conteúdos recheados de história, de risos, de simpatia, de despertar a curiosidade. Um variado repertório de experiências é demais importante.
Com o Xadrez existe diversos tipos de intervenção que podem ser pontuadas no decorrer da aula; um enorme repertório está à disposição de um profissional experiente e dedicado. Este ponto podemos discutir mais tarde!
Finalmente, podemos reavaliar nosso aluno e descobrir se aconteceu o que foi combinado, se conseguimos, ao menos em parte, atingir os objetivos previamente estabelecidos.
Lembrando: conhecimento adquirido, aprendizagem, é saúde para o cérebro, levamos isto para toda a nossa vida.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Entrevista do Mequinho para CBN em 2007
Para quem ainda não tinha lido a entrevista abaixo, realizada pelo jornalista Carlos Eduardo Éboli, da CBN, em fevereiro de 2007.
Mequinho: Mas você sabe, não há nenhum caso em todo o esporte brasileiro, eu digo no esporte, não é só no xadrez, é no tênis, no futebol, no basquete, um jogador que tenha ficado 17 anos sem jogar o seu esporte e tenha voltado a ser o número 1 da seleção brasileira. Eu joguei já duas vezes como número 1 da seleção brasileira, e estou subindo agora cada vez mais. Por que estou subindo? Tenho 54 anos, mas eu faço esportes. Segundo um especialista que me faz a preparação física, eu tenho preparação física de 35 anos. Graças a Deus! Porque eu muitas vezes pedi a Deus, eu sou teólogo católico, Jesus me salvou através de oração de pessoas da Renovação Carismática Católica, que é o movimento que mais cresce dentro da igreja católica, exatamente porque Jesus tem curado muitos doentes, e aqui inclusive em Guarulhos eu trouxe 50 exemplares do meu livro, qualquer pessoa no Brasil inteiro pode comprar, está na sexta edição, “Como Jesus Cristo Salvou Minha Vida”, ed. Loyola, autor sou eu Mequinho. Este livro está para ser publicado agora na Itália, onde eu venci um torneio agora em junho, então eu fiquei estes anos todos sem jogar xadrez. Eu também me formei em teologia católica, em filosofia, e passei 17 anos sem jogar xadrez e voltei a ser o primeiro da seleção brasileira de xadrez.
Éboli: E pelo jeito voltou melhor do que antes, não é Mequinho, porque voltou com muita disposição, a gente percebe nas suas palavras, na sua voz, como os médicos falam, 54, mas com “corpinho” de 35, e mostrando que preparo físico é fundamental, mesmo no xadrez. As pessoas tem aquela imagem, o sujeito sentado, pensando, mão na cabeça, qual é a melhor jogada? Jogo de precisão, num tabuleiro, um confronto, desafio de mentes, mas estar bem fisicamente é fundamental também.
Mequinho: Porque quando eu estou descansado, esta doença que eu tenho, esta “miastenia gravis”, que é um mau contato entre os nervos e os músculos, de qualquer maneira então, teoricamente, qualquer esforço que eu faça, física ou mental, eu demoro um pouco mais de tempo que as demais pessoas pra me recuperar. Esta cura tem sido me dada de maneira milagrosa por Jesus. Em 1979 me davam apenas 15 dias de vida, porque eu não podia mastigar fazia um mês e meio. Esta doença pode atacar qualquer músculo do corpo, as pernas estavam fortemente atacadas, eu sem mastigar, só podia tomar alimentos líquidos, ia enfraquecendo de dia pra dia. Você não imagina! Quem lê o meu livro, quem tem um doente na família fica maravilhado, como eu estava tão mal, pra morrer, e agora eu vou pelo mundo inteiro, vou pra Espanha, para a Itália, ganho torneio de xadrez, faço esporte, e estou muito bem, não é? Então Jesus está me curando progressivamente, agora eu já estou 99,9% bom, então, na medida em que vou ficando cada vez melhor, eu vou jogando melhor xadrez.
Éboli: Vamos voltar lá no início, cinco anos de idade, foi quando você começou a jogar, não foi?
Mequinho: Exatamente, com sete anos eu já era vice-campeão da minha cidade onde eu jogava, no Rio Grande do Sul, mas jogando entre adultos. Atualmente no xadrez tem muitas categorias, sub-10, sub-12, sub-14, no meu tempo não era assim, há 40 anos atrás, ou era juvenil ou adulto, e eu jogava só com os adultos, com sete anos eu já era vice-campeão da cidade, que no caso era São Lourenço do Sul, jogando com adultos, com 12 anos eu já era campeão do Rio Grande do Sul.
Éboli: Porque você era um extra-série. Hoje, um enxadrista, mais novo, ele mesmo se revelando um extra-série, como você é, um mestre do xadrez, já jovem revelando este dom que você tem para esta modalidade, para este jogo, quer dizer uma pessoa mais jovem não pode se misturar com os adultos, não pode jogar numa categoria superior, mesmo tendo capacidade para tal?
Mequinho: Não, claro que pode. Mas exatamente eu jogava porque eu conseguia ganhar dos adultos. Então, esta cidade onde eu morava, era uma cidade relativamente pequena. Aí, um pouco depois, quando eu tinha oito anos de idade, a minha família já mudou para uma cidade maior, que era Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde lá havia um senhor que era tri-campeão gaúcho, e vice-campeão brasileiro. Aí eu demorei 3 anos para conseguir superá-lo, ele tinha sido vice-campeão brasileiro! Com 12 anos eu consegui derrota-lo, ser campeão do Rio Grande do Sul, com 13 anos eu consegui ser campeão brasileiro, a primeira vez que eu joguei o campeonato brasileiro! Mas quer dizer, campeonato brasileiro de todas as idades, absoluto. Depois com 15 anos eu fui campeão da América do Sul e mestre internacional; com 20 anos era grande mestre internacional, que é o maior título vitalício que a federação mundial dá. Acima de mestre e grande mestre internacional, só tem o campeão do mundo, mas não é um título vitalício, quer dizer ele pode ganhar hoje, daqui a um ano, daqui a meio ano, daqui a dois anos ele pode perder. O título de grande mestre internacional é o maior título que a pessoa não perde nunca, é vitalício.
Éboli: Em 1978, Mequinho, você atingiu a pontuação de terceiro melhor do planeta no xadrez, atrás apenas do Korchnoi e do Karpov... O que você lembra desta época e destes dois jogadores?
Mequinho: Eu era o melhor jogador fora da Rússia, os dois eram russos, então eu estava no auge, a doença começou um ano antes, em 1977, aí eu fui caindo, fui caindo também porque houve uma inflação muito grande no ranking da federação mundial. No xadrez chama-se “rating”, então em determinado momento, a federação mundial deu 100 pontos para as mulheres, e então isso inflacionou muito o mercado, se não tivesse havido esta inflação eu ainda estaria entre os melhores do mundo, quer dizer, não sei bem que número, eu estaria entre os 40, os 50, mas eu estou subindo rapidamente agora. Basta eu jogar torneios internacionais. Eu estou jogando cada vez melhor. Nos últimos 5 torneios internacionais que eu joguei, eu perdi só uma partida, entendeu? Na realidade eu sou muito católico, quando eu começo a ficar mal na partida, eu começo a pedir a Jesus e a Nossa Senhora que me salvem, e Jesus fica com pena de mim, que ele sabe que eu gosto muito pouco de perder, tenho horror a perder, e estou dizendo que em cinco torneios internacionais, foram em São Paulo, a zona sul-americana do Brasil (Brasil, Peru e Bolívia), depois um torneio internacional em Caxias do Sul, outro na Itália, outro na Espanha, e outro agora no Paraná, em Guarapuava, em 5 torneios internacionais, joguei 15 partidas com grande-mestres internacionais, eu só perdi uma partida, é uma coisa maravilhosa!
Eboli: Quantas vezes você enfrentou o Karpov?
Mequinho: Karpov, eu sempre saí mal com ele, só empatei uma com ele, porque eu joguei, a primeira, eu não era Grande Mestre, com ele eu não tenho bom “score”. Por exemplo, eu já ganhei duas vezes de um outro ex-campeão do mundo, e já ganhei uma vez também de um outro ex-campeão do mundo, esse outro já morreu, o Miguel Tal, que é considerado um tremendo gênio do xadrez, ele sacrificava as peças, fazia combinações, ataques devastadores, e a única que eu joguei com ele eu ganhei. Até foi uma pena, como ele já morreu, ele jogou comigo e disse: “Joguei com Mequinho, perdi, mas espero que esta partida foi a primeira, e que não seja a última”, mas, infelizmente foi também a última, pois ele morreu.
Éboli: Com Karpov era complicado, mesmo você solicitando a ajudinha divina ...
Mequinho: Não, porque quando eu joguei com Karpov eu não era religioso como eu sou hoje. Foi por isso, entendeu? Quando eu joguei com Karpov, eu não era..., eu me converti depois que fiquei doente. Na realidade, de todas as partidas que eu joguei com Karpov, só a última é que eu era religioso, entendeu? Quando eu voltei, no ano 2000, você pensa bem, em qualquer esporte, não precisa nem ser xadrez, um atleta que fica dezessete anos sem jogar o seu esporte, se recente. Então no ano 2000, 2001, 2002, eu não estava ainda a todo vapor, eu me recentia daqueles anos todos, eu parado. Agora eu estou indo cada vez mais com mais vigor. Por exemplo, o Karpov veio pra cá jogar uma simultânea, no Brasil, no Clube de Xadrez São Paulo, faz 1 ou 2 anos atrás, ele jogou contra 20 jogadores, e perdeu uma partida, empatou algumas, parece que empatou 4 e ganhou o resto, 15. E eu não, eu no Brasil, há 30 anos eu não perco nenhuma partida em simultânea.
Éboli: eu quero saber então se ao menos um destes 20 jogadores que estarão com você, fazendo esta simultânea, se alguém vai ter a capacidade de derrubar, de quebrar esta seqüência brilhante do Mequinho...
Mequinho: Não, nem fale, nem fale nisto! Eu estou há 30 anos sem perder nenhuma partida. Teve uma vez em Cuiabá, que eu me distraí... Você sabe jogar xadrez, não sabe? Eu perdi um cavalo...Eu tinha só dois peões, mas eu estava totalmente perdido, eu me distraí.Eu pensei que a simultânea era mais fraca... E, em determinado momento eu me distraí.Aí as moças ficaram rezando todo tempo, moças católicas da Renovação Carismática Católica, eu disse pra elas, nem mais o campeão do mundo salva...Só Jesus. Aí elas disseram, nós vamos ficar todo o tempo rezando. Aí um monte de gente aglomerado na mesa que eu ia perder, e por azar meu era o melhor jogador lá do Mato Grosso. Aí eles rezaram, rezaram.Eu fiquei toda partida perdido, e na última hora, no último momento, Jesus deu um jeito, eu consegui empatar a partida, quase que milagrosamente. Milagrosamente! Mas realmente, eu estou há 30 anos sem perder nenhuma partida em simultânea no Brasil, e espero ainda ficar muitos anos.
Éboli: Legal, Mequinho, obrigado pela sua participação. Sucesso aí neste evento em Guarulhos, você jogando simultaneamente contra estes 20 jogadores. Muito obrigado. Bom saber que você está bem, voz firme, seguindo nesta carreira brilhante.
Mequinho: Muito obrigado, e eu quero o apoio de todos os brasileiros, e de vocês da imprensa, porque eu tenho chance de voltar a ser um dos melhores do mundo , e isso vai acontecer, com a ajuda de Deus, mas eu tenho chance até mesmo de ser campeão do mundo. O Anand na Índia, ele foi campeão do mundo, porque lá na Índia, todo mundo o apóia. Ele é um herói nacional, destaque em toda imprensa, em todos os meios. É preciso aqui no Brasil eu ter este apoio, entendeu? É muito importante pra mim, muito importante. Obrigado e foi um prazer falar com você e com os ouvintes da rádio, tá bom? Muito obrigado!
Éboli: Muito bem, eu conversei com Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, um dos maiores enxadristas do mundo, e ele é brasileiro, hein ?
Contato: leopasq10@yahoo.com.br
Mequinho: Mas você sabe, não há nenhum caso em todo o esporte brasileiro, eu digo no esporte, não é só no xadrez, é no tênis, no futebol, no basquete, um jogador que tenha ficado 17 anos sem jogar o seu esporte e tenha voltado a ser o número 1 da seleção brasileira. Eu joguei já duas vezes como número 1 da seleção brasileira, e estou subindo agora cada vez mais. Por que estou subindo? Tenho 54 anos, mas eu faço esportes. Segundo um especialista que me faz a preparação física, eu tenho preparação física de 35 anos. Graças a Deus! Porque eu muitas vezes pedi a Deus, eu sou teólogo católico, Jesus me salvou através de oração de pessoas da Renovação Carismática Católica, que é o movimento que mais cresce dentro da igreja católica, exatamente porque Jesus tem curado muitos doentes, e aqui inclusive em Guarulhos eu trouxe 50 exemplares do meu livro, qualquer pessoa no Brasil inteiro pode comprar, está na sexta edição, “Como Jesus Cristo Salvou Minha Vida”, ed. Loyola, autor sou eu Mequinho. Este livro está para ser publicado agora na Itália, onde eu venci um torneio agora em junho, então eu fiquei estes anos todos sem jogar xadrez. Eu também me formei em teologia católica, em filosofia, e passei 17 anos sem jogar xadrez e voltei a ser o primeiro da seleção brasileira de xadrez.
Éboli: E pelo jeito voltou melhor do que antes, não é Mequinho, porque voltou com muita disposição, a gente percebe nas suas palavras, na sua voz, como os médicos falam, 54, mas com “corpinho” de 35, e mostrando que preparo físico é fundamental, mesmo no xadrez. As pessoas tem aquela imagem, o sujeito sentado, pensando, mão na cabeça, qual é a melhor jogada? Jogo de precisão, num tabuleiro, um confronto, desafio de mentes, mas estar bem fisicamente é fundamental também.
Mequinho: Porque quando eu estou descansado, esta doença que eu tenho, esta “miastenia gravis”, que é um mau contato entre os nervos e os músculos, de qualquer maneira então, teoricamente, qualquer esforço que eu faça, física ou mental, eu demoro um pouco mais de tempo que as demais pessoas pra me recuperar. Esta cura tem sido me dada de maneira milagrosa por Jesus. Em 1979 me davam apenas 15 dias de vida, porque eu não podia mastigar fazia um mês e meio. Esta doença pode atacar qualquer músculo do corpo, as pernas estavam fortemente atacadas, eu sem mastigar, só podia tomar alimentos líquidos, ia enfraquecendo de dia pra dia. Você não imagina! Quem lê o meu livro, quem tem um doente na família fica maravilhado, como eu estava tão mal, pra morrer, e agora eu vou pelo mundo inteiro, vou pra Espanha, para a Itália, ganho torneio de xadrez, faço esporte, e estou muito bem, não é? Então Jesus está me curando progressivamente, agora eu já estou 99,9% bom, então, na medida em que vou ficando cada vez melhor, eu vou jogando melhor xadrez.
Éboli: Vamos voltar lá no início, cinco anos de idade, foi quando você começou a jogar, não foi?
Mequinho: Exatamente, com sete anos eu já era vice-campeão da minha cidade onde eu jogava, no Rio Grande do Sul, mas jogando entre adultos. Atualmente no xadrez tem muitas categorias, sub-10, sub-12, sub-14, no meu tempo não era assim, há 40 anos atrás, ou era juvenil ou adulto, e eu jogava só com os adultos, com sete anos eu já era vice-campeão da cidade, que no caso era São Lourenço do Sul, jogando com adultos, com 12 anos eu já era campeão do Rio Grande do Sul.
Éboli: Porque você era um extra-série. Hoje, um enxadrista, mais novo, ele mesmo se revelando um extra-série, como você é, um mestre do xadrez, já jovem revelando este dom que você tem para esta modalidade, para este jogo, quer dizer uma pessoa mais jovem não pode se misturar com os adultos, não pode jogar numa categoria superior, mesmo tendo capacidade para tal?
Mequinho: Não, claro que pode. Mas exatamente eu jogava porque eu conseguia ganhar dos adultos. Então, esta cidade onde eu morava, era uma cidade relativamente pequena. Aí, um pouco depois, quando eu tinha oito anos de idade, a minha família já mudou para uma cidade maior, que era Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde lá havia um senhor que era tri-campeão gaúcho, e vice-campeão brasileiro. Aí eu demorei 3 anos para conseguir superá-lo, ele tinha sido vice-campeão brasileiro! Com 12 anos eu consegui derrota-lo, ser campeão do Rio Grande do Sul, com 13 anos eu consegui ser campeão brasileiro, a primeira vez que eu joguei o campeonato brasileiro! Mas quer dizer, campeonato brasileiro de todas as idades, absoluto. Depois com 15 anos eu fui campeão da América do Sul e mestre internacional; com 20 anos era grande mestre internacional, que é o maior título vitalício que a federação mundial dá. Acima de mestre e grande mestre internacional, só tem o campeão do mundo, mas não é um título vitalício, quer dizer ele pode ganhar hoje, daqui a um ano, daqui a meio ano, daqui a dois anos ele pode perder. O título de grande mestre internacional é o maior título que a pessoa não perde nunca, é vitalício.
Éboli: Em 1978, Mequinho, você atingiu a pontuação de terceiro melhor do planeta no xadrez, atrás apenas do Korchnoi e do Karpov... O que você lembra desta época e destes dois jogadores?
Mequinho: Eu era o melhor jogador fora da Rússia, os dois eram russos, então eu estava no auge, a doença começou um ano antes, em 1977, aí eu fui caindo, fui caindo também porque houve uma inflação muito grande no ranking da federação mundial. No xadrez chama-se “rating”, então em determinado momento, a federação mundial deu 100 pontos para as mulheres, e então isso inflacionou muito o mercado, se não tivesse havido esta inflação eu ainda estaria entre os melhores do mundo, quer dizer, não sei bem que número, eu estaria entre os 40, os 50, mas eu estou subindo rapidamente agora. Basta eu jogar torneios internacionais. Eu estou jogando cada vez melhor. Nos últimos 5 torneios internacionais que eu joguei, eu perdi só uma partida, entendeu? Na realidade eu sou muito católico, quando eu começo a ficar mal na partida, eu começo a pedir a Jesus e a Nossa Senhora que me salvem, e Jesus fica com pena de mim, que ele sabe que eu gosto muito pouco de perder, tenho horror a perder, e estou dizendo que em cinco torneios internacionais, foram em São Paulo, a zona sul-americana do Brasil (Brasil, Peru e Bolívia), depois um torneio internacional em Caxias do Sul, outro na Itália, outro na Espanha, e outro agora no Paraná, em Guarapuava, em 5 torneios internacionais, joguei 15 partidas com grande-mestres internacionais, eu só perdi uma partida, é uma coisa maravilhosa!
Eboli: Quantas vezes você enfrentou o Karpov?
Mequinho: Karpov, eu sempre saí mal com ele, só empatei uma com ele, porque eu joguei, a primeira, eu não era Grande Mestre, com ele eu não tenho bom “score”. Por exemplo, eu já ganhei duas vezes de um outro ex-campeão do mundo, e já ganhei uma vez também de um outro ex-campeão do mundo, esse outro já morreu, o Miguel Tal, que é considerado um tremendo gênio do xadrez, ele sacrificava as peças, fazia combinações, ataques devastadores, e a única que eu joguei com ele eu ganhei. Até foi uma pena, como ele já morreu, ele jogou comigo e disse: “Joguei com Mequinho, perdi, mas espero que esta partida foi a primeira, e que não seja a última”, mas, infelizmente foi também a última, pois ele morreu.
Éboli: Com Karpov era complicado, mesmo você solicitando a ajudinha divina ...
Mequinho: Não, porque quando eu joguei com Karpov eu não era religioso como eu sou hoje. Foi por isso, entendeu? Quando eu joguei com Karpov, eu não era..., eu me converti depois que fiquei doente. Na realidade, de todas as partidas que eu joguei com Karpov, só a última é que eu era religioso, entendeu? Quando eu voltei, no ano 2000, você pensa bem, em qualquer esporte, não precisa nem ser xadrez, um atleta que fica dezessete anos sem jogar o seu esporte, se recente. Então no ano 2000, 2001, 2002, eu não estava ainda a todo vapor, eu me recentia daqueles anos todos, eu parado. Agora eu estou indo cada vez mais com mais vigor. Por exemplo, o Karpov veio pra cá jogar uma simultânea, no Brasil, no Clube de Xadrez São Paulo, faz 1 ou 2 anos atrás, ele jogou contra 20 jogadores, e perdeu uma partida, empatou algumas, parece que empatou 4 e ganhou o resto, 15. E eu não, eu no Brasil, há 30 anos eu não perco nenhuma partida em simultânea.
Éboli: eu quero saber então se ao menos um destes 20 jogadores que estarão com você, fazendo esta simultânea, se alguém vai ter a capacidade de derrubar, de quebrar esta seqüência brilhante do Mequinho...
Mequinho: Não, nem fale, nem fale nisto! Eu estou há 30 anos sem perder nenhuma partida. Teve uma vez em Cuiabá, que eu me distraí... Você sabe jogar xadrez, não sabe? Eu perdi um cavalo...Eu tinha só dois peões, mas eu estava totalmente perdido, eu me distraí.Eu pensei que a simultânea era mais fraca... E, em determinado momento eu me distraí.Aí as moças ficaram rezando todo tempo, moças católicas da Renovação Carismática Católica, eu disse pra elas, nem mais o campeão do mundo salva...Só Jesus. Aí elas disseram, nós vamos ficar todo o tempo rezando. Aí um monte de gente aglomerado na mesa que eu ia perder, e por azar meu era o melhor jogador lá do Mato Grosso. Aí eles rezaram, rezaram.Eu fiquei toda partida perdido, e na última hora, no último momento, Jesus deu um jeito, eu consegui empatar a partida, quase que milagrosamente. Milagrosamente! Mas realmente, eu estou há 30 anos sem perder nenhuma partida em simultânea no Brasil, e espero ainda ficar muitos anos.
Éboli: Legal, Mequinho, obrigado pela sua participação. Sucesso aí neste evento em Guarulhos, você jogando simultaneamente contra estes 20 jogadores. Muito obrigado. Bom saber que você está bem, voz firme, seguindo nesta carreira brilhante.
Mequinho: Muito obrigado, e eu quero o apoio de todos os brasileiros, e de vocês da imprensa, porque eu tenho chance de voltar a ser um dos melhores do mundo , e isso vai acontecer, com a ajuda de Deus, mas eu tenho chance até mesmo de ser campeão do mundo. O Anand na Índia, ele foi campeão do mundo, porque lá na Índia, todo mundo o apóia. Ele é um herói nacional, destaque em toda imprensa, em todos os meios. É preciso aqui no Brasil eu ter este apoio, entendeu? É muito importante pra mim, muito importante. Obrigado e foi um prazer falar com você e com os ouvintes da rádio, tá bom? Muito obrigado!
Éboli: Muito bem, eu conversei com Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, um dos maiores enxadristas do mundo, e ele é brasileiro, hein ?
Contato: leopasq10@yahoo.com.br
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Xadrez e Reabilitação Neuropsicológica
(ilustração: "Neurônio" - Bruna Paciornik - EIBSG)
Amigos,
Cada vez
mais o Xadrez tem sido usado como ferramenta de desenvolvimento e de
reabilitação, de crianças e adultos, em questões neuropsicológicas.
Pesquisando
no site de publicações científicas, PUBMED, descobri dois trabalhos da
pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da USP, a Priscila Dib. Seus artigos
se referem a buscas de alternativas de reabilitação neuropsicológica das
Funções Executivas (FE). Parte nobre de nosso cérebro, o cortéx pré-frontal,
local de redes neuronais que, segundo importantes pesquisadores (Lezak, Miyake,
Diamond), é responsável por, principalmente, Volição, Planejamento,
Flexibilidade, Inibição e Memória de Trabalho, as chamadas FE.
A Metacognição,
onde o paciente verbaliza consigo mesmo (com ajuda de intervenções por parte do
terapeuta) as estratégias e caminhos de suas ações, para que ele próprio tenha
consciência de suas atitudes e seja o protagonista de suas mudanças, é inerente
ao próprio aprendizado e desenvolvimento das habilidades no Jogo de Xadrez. Por
que não usar desta técnica em reabilitação, fazer com que o paciente compreenda
suas próprias decisões, estratégias?
Segundo a
pesquisadora, “os jogos podem promover e exercer grandes mudanças em seus
participantes, fazendo associações com a vida real e não com experiências ou
materiais artificiais”. A interação com adversários faz com que não apenas o
cognitivo seja estimulado, mas também em aspectos subjetivos – as nossas
emoções.
Os primeiros
resultados destas pesquisas usando o Jogo de Xadrez, com dependentes de
substâncias (cocaína) mostrou melhora na Memória de Trabalho e Inibição
(impulsividade).
Novos
estudos precisam ser realizados para comprovar esta nova ferramenta da
neuropsicologia, o Xadrez!
Próximo post: continuação sobre as pesquisas no Instituto de Psiquiatria da USP – IPq FMUSP
Referências: Neuropsychological Rehabilitation of Executive
Functions: Challenges and Perspectives; Priscila Dib Gonçalves, Mariella
Onetto, Gabriela Sendoya, Cristine Lacet, Luciana Monteiro, Paulo Jannuzzi
Cunha; Journal of Behavioral and Brain Sience, 2014;
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Neurociências e o Xadrez
Amigos,
As pesquisas com neurociências vem
avançando muito. Estudos de neuro-imagem, ressonância magnética, são recentes.
E os dados das pesquisas sobre o desenvolvimento cerebral ainda estão
evoluindo.
Ao nascer, o ser humano já nasce com
uma quantidade de neurônios maior do que quando terá em uma idade adulta. Até
os 2 anos de vida, atingimos nossa capacidade máxima de densidade neuronal no
lobo frontal, depois ela vai diminuindo.
A redução no número de sinapses no lobo frontal pode representar um
“refinamento qualitativo” na capacidade funcional dos neurônios.
Porém, o importante é o que acontece
com os neurônios neste momento: suas conexões, o crescimento da arborização
(dendritos) e suas ligações axônicas. Posteriormente, com a conexão de
neurônios mais distantes fisicamente entre si, a mielinização.
Esta fase importantíssima é a do seu
desenvolvimento, da linguagem, do sistema motor. As interferências Culturais e Ambientais
estão diretamente ligadas ao comportamento. Uma boa alimentação, um bom ambiente
familiar, mas também estímulos cognitivos são fatores determinantes.
O período de maior desenvolvimento
das Funções Executivas, aquelas responsáveis por planejamento, inibição,
flexibilidade e a memória de trabalho está entre os 6 e 8 anos de idade. Aos 10
anos elas já conseguem atingir o nível dos adultos quanto a performance em
testes (Wisconsin), mas no teste de fluência verbal só o conseguem aos 17, 18
anos. Aos 14 anos os lobos frontais se desenvolvem de forma estável até os 45
anos, mas ainda em pleno desenvolvimento!
O desenvolvimento da linguagem
participa em muitos processos mentais elevados, como o do planejamento,
resolução de problemas, abstração. A linguagem será a grande intermediadora nas
habilidades cognitivas.
Estimular a criança no desenvolvimento
dessas Funções Executivas (FE) é o alvo que devemos prestar atenção. Muitos trabalhos estão sendo feitos em
estimular as FE, e uma das ferramentas importantes é o Xadrez.
Se formos pensar a respeito,
planejamento e flexibilidade, a inibição de nossos impulsos em fazer jogadas
precipitadas e a enorme utilização de nossa memória de trabalho para a
“visualização” e a comparação de inúmeras variantes são essenciais para se
jogar bem Xadrez. Recomendo a leitura do livro “Uma Questão de Caráter”, de
Paul Tough, que traz um capítulo inteiro sobre o uso do Xadrez nas escolas dos
Estados Unidos.
A plasticidade do cérebro, ou seja, a
sua capacidade de se modificar e reorganizar, é para a vida toda.
Desenvolvimento e Maturação; Aprendizado e Memória; Reabilitação Neuropsicológica
devido a lesões; em todos estes casos, é possível utilizarmos da ferramenta
Xadrez, desde que se tenha um objetivo a ser alcançado e usá-lo de maneira
adequada, estimulando de forma positiva com experiências enriquecedoras.
Quando temos que tomar decisões,
criar vínculos, empatia, inibir a satisfação imediata das nossas vontades,
estamos falando das Funções Executivas “quentes”, aquelas que envolvem as
emoções (lobo frontal conectado com o núcleo caudado e amigdala), onde as
consequências das decisões que tomamos aparecem. No jogo de xadrez, as
consequências de nossas decisões aparecem ao final da partida; decisões tomadas
sem uma análise cuidadosa podem gerar a perda da partida, deixando o jogador
frustrado.
Treinar uma criança com problemas de
xeque-mate em 1 lance, por exemplo, estamos exercitando puramente o cognitivo,
a análise, a busca, a flexibilização de ideias. Porém, quando se joga uma
partida e se coloca em prática o que se aprende, é posta à prova as emoções, as
decisões influenciadas por sentimentos. As consequências não demoram à
acontecer!
Vou continuar com o tema Reabilitação
Cognitiva no próximo post.
Até lá!
domingo, 7 de julho de 2013
A Discalculia e o Xadrez
Amigos,
A discalculia, bem
simploriamente, é a dificuldade com a matemática. A discalculia pura, sem
outros distúrbios (como a dislexia), afeta entre 0,5 a 2% da população mundial
segundo pesquisas dos neurocientistas do assunto. Acompanhada de outras dificuldades
pode chegar a 6%!!
No milenar jogo de Xadrez
temos uma atividade lúdica que envolve diversas áreas do cérebro: memória (lobo
temporal dominante, hipocampo, neo córtex), funções executivas (lóbos frontais)
pensamento lógico-matemático, atenção e imaginação; e também codificação e
registro de problemas (lobo frontal esquerdo) e evocação (lobo frontal
esquerdo).
Sua relevante importância
pedagógica envolve a sociabilização, memória, raciocínio e auto-estima.
Os jogadores de xadrez estão
constantemente analisando, criando estratégias, questionando, enfrentando outros
pontos de vista que fazem compreender seus limites, portanto tornando-se
flexível e compreendendo a reversibilidade de posturas e pensamentos.
Durante uma partida de xadrez
os jogadores enfrentam constantes desafios lógico-matemáticos, como os de comparação
de quantidades, cálculos de jogadas, análise e memória, tudo isso de forma
simbólica, pois o que se está manipulando são apenas símbolos.
Eu tenho dado
muitas aulas de xadrez observando os alunos, na sua capacidade de calcular, no
que se refere às trocas de peças (aritmética - capturas), nas questões
geométricas (diagonais, horizontais, verticais, coordenadas), álgebra (as figuras
representam valores relativos). A visão espacial, observar todo o tabuleiro, a
lógica, a abstração, tudo isso faz parte de se jogar xadrez.
A atividade
lúdica do jogo, portanto, faz com que sejam praticadas todas estas disciplinas,
juntas, sem que o aluno perceba. Os resultados começam a aparecer após alguns
meses de exercícios constantes. Exercícios como xeque-mate em um lance, de
tática, de xadrez reverso dentre outros, além é claro da partida em si, são
todos mecanismos ótimos e as intervenções do professor conduzem a aprendizagem.
Neurologicamente,
seria treinar novas vias cerebrais, fortalecer sinapses, para, pelo menos,
atenuar essa dificuldade.
Eu lembro de uma
aluninha que tinha uma dificuldade enorme com a lógica, o cálculo simples
(tipo, três mais quatro). Após algumas aulas, começamos a usar como tabuleiro, o
piso do Clube de Xadrez de Curitiba e caminhamos pelas diagonais, usamos o
corpo como se fossemos peças. Após um tempo, percebi que ela havia melhorado.
Ela começou a ter maior apoio da escola, também.
O importante foi
que eu percebi, através do xadrez, que ela possuía aquela dificuldade e
começamos a fazer um trabalho mais específico.
sábado, 1 de setembro de 2012
As Aulas de Xadrez e o Pensamento Crítico
Amigos,
Não basta estudar, aprender, saber. O Xadrez é um dos mais valiosos instrumentos da Humanidade, para ensinar a pensar, refletir, analisar, sintetizar e até mesmo, julgar.
E é essa a reflexão que quero deixar aqui aos meus amigos professores em geral.
Nas minhas aulas de xadrez eu procuro, além da pura técnica, instigar os meus alunos a pensar e repensar, a criticar, enfim, em tentar enxergar sob um ângulo diferente as coisas do nosso dia-a-dia.
Em meio a uma das minhas aulas, a aluna, muito crítica, que não cansava de me questionar (toda hora era "por quê isso", "por quê aquilo"), saiu uma comparação interessante, vinda de duas imagens.
Na primeira, observamos a foto de uma empresa de telemarketing, onde os funcionários se acotovelam , lado a lado (um ex-colega comparava com um galinheiro), sempre de olho na telinha do monitor. Imediatamente me veio a lembrança o filme de Charlie Chaplin , "Tempos Modernos".
É interessante como essa imagem expressa o momento atual do "Ser Humano", envolto a tecnologia dos computadores, internet, uma das maiores revoluções da história, pois as comunicações se expandiram de forma impensável, revolucionando costumes, culturas, trabalho, lazer, etc.
Na outra imagem, a mesma "modernidade", a tecnologia de ponta da época, e também o mesmo "Ser Humano", nesta, feito uma engrenagem, a serviço do "bem de consumo".
E é essa a reflexão que quero deixar aqui aos meus amigos professores em geral.
sábado, 25 de agosto de 2012
O Arquiteto das Peças de Xadrez
Caros Amigos,
Nas últimas férias de julho, conheci um jovem senhor, arquiteto, que confeccionou suas próprias peças de xadrez, há mais de 40 anos, com porcas, parafusos, arruelas etc.
Eu tinha resolvido fazer uma pequena aventura, viajar sem destino, e aproveitar para descansar e meditar um pouco. Mas não é que, logo ao chegar na cidade, a procura de um lugar diferente, ouvi o senhor que estava ao meu lado dizendo das águas limpas e dos pássaros que cantarolavam o dia inteiro em sua pousada? Bem, puxei conversa e ele me levou até lá. Me disse que normalmente a pousada é frequentada por casais ou famílias com filhos.
A primeira coisa que notei quando chegamos foi um tabuleiro de xadrez, bem antigo e de madeira, encostado perto da televisão. Em seguida já fiz a pergunta, "joga xadrez"?
O "seu" Ricardo, dono da Pousada "Toca das Maritacas", em Piracaia, São Paulo, pertinho de Bragança Paulista, me contou que gostava muito de xadrez, que aprendera com o pai, com quem jogava frequentemente. Ele lembrou as palavras de seu pai: "Ricardo, pratique o xadrez para exercitar os seus pensamentos, encontrar novos amigos, se divertir". "No xadrez existe alguma coisa mágica que lhe trará bons momentos de inspiração, pois enquanto joga, sua mente trabalha com alguns aspectos do seu inconsciente e o ajudarão a resolver os problemas do cotidiano".
Como todo arquiteto recém-formado que quer inventar alguma coisa nova, um estilo novo, pensou no jogo de xadrez. Comprou as ferragens, montou as peças e mandou cromá-las. Com muito orgulho, me mostrou sua criação, guardada com todo carinho.
Seguiu-se uma longa história. Ele me contou de que um dia, quarenta anos atrás, passeando pelo centro de São Paulo, encontrou no chão um parafuso e uma porca atarraxados de forma peculiar. Guardou aquelas peças no bolso e continuou caminhando. Em seguida se deparou com uma porta quadriculada em preto e branco de um elevador. Tratava-se do Clube de Xadrez de São Paulo.
Resolveu subir, lembrando do velho pai e de seus sábios conselhos com relação ao jogo de xadrez. Se deparou com algumas mesas, uma com um senhor que aguardava um adversário para jogar umas partidas.
O "seu" Ricardo se aproximou e resolveu arriscar uma partida. Perdeu duas em seguida muito rapidamente, mas ouviu do oponente sobre as tardes que passava prazerosamente no Clube.
Num movimento involuntário, o "seu" Ricardo bateu com a mão no bolso e lembrou daquele parafuso. A ideia foi imediata: confeccionaria um jogo de peças com aquele tipo de material. Agradeceu ao seu adversário, saindo em seguida a procura de uma casa de ferragens.
Na casa de ferragens, enquanto aguardava o pedido que fizera ao vendedor da loja, deparou-se com um anúncio de jornal indicando um terreno a venda: quem diria, aquele pedaço de terra se transformaria em sua futura pousada!
E querem mais? Pois não é que a moça que queria vender aquele pedaço de terra seria sua futura esposa? Desde então, o "seu" Ricardo, que não voltou mais ao Clube de Xadrez, nem confeccionou mais peças, apenas deixa embaixo do seu balcão na pousada, duas sacolinhas em couro e tecido, e nelas suas peças de xadrez da sorte. Me confidenciou também que muita gente que por ali passou e que jogou com aquelas peças, acabou voltando inúmeras vezes para conseguir momentos de tranquilidade e inspiração na sua pousada.
O Xadrez não é só um jogo. É uma sábia invenção humana, que permite apreciarmos em diversas formas de manifestação, artística e cultural, científica. Cabe a nós, amantes do xadrez, darmos a oportunidade de mostrar esse outro lado para as pessoas, para que o jogo-ciência-esporte-arte continue trazendo desafios, sonhos, lazer, cultura. O xadrez é uma ferramenta para todas as idades e todos os gostos, só precisamos despertá-la!

Passei boas horas com o "seu" Ricardo. Me contou muito da São Paulo antiga, de seus trabalhos, de seus estudos no Rio de Janeiro, de suas aventuras e, claro, das maritacas que toda manhã o despertavam.
Como diria o lema do Xadrez Postal Brasileiro: "leva o xadrez, traz o amigo".
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
As Peças Contam Histórias!
Amigos,
Eu recebi um e-mail da Marina, de São Paulo, em setembro passado, perguntando se eu conhecia alguém que restaurasse peças de xadrez. Tratava-se de um jogo antigo, fabricado lá pelo ano de 1957 ... Um jogo de xadrez que tinha pertencido ao avô de seu marido! Indiquei o Dirk Dagobert Van Riemsdiyk, que trabalha confeccionando peças há muitos anos!
Ela me contou diversas histórias acontecidas com aquele jogo:
"A tradição do xadrez já existe na família Rappl há muitas décadas... O bisavô do meu marido veio com a esposa para o Brasil fugidos da revolução russa... diz que era alfaiate de luxo da nobreza russa... com a guerra civil não viram outra saída a não ser fugir da região e optaram em vir para o Brasil... além também de que eram todos judeus... outro fator que ajudou na decisão... tudo isso por volta de 1917, 1918... o bisavô Hermann (dono do jogo de xadrez) nasceu no navio vindo para cá... ele aprendeu a jogar xadrez com seu pai (tataravô do Pedro, meu filho) e ensinou meu sogro este fabuloso jogo...
Este tabuleiro foi base de ensino, então, do pai do meu sogro, que ensinou meu sogro, meu sogro ensinou meu marido e meu filho também terá oportunidade de jogar utilizando o mesmo jogo de peças ... incrível...
O cheiro da madeira é mágico..."
Com o xadrez escolar e o barateamento dos custos de competições com grande quantidade de jogadores, tanto peças como tabuleiros são feitos de plástico. Esta característica da sofisticação da madeira perdeu-se. Só em eventos de alto nível elas ainda são obrigatórias. Uma pena, pois a madeira tem uma magia, uma coisa mais natural, mais humana, mais viva.
Insinuei à Marina em comprar o jogo. Eis a resposta que eu queria ouvir:
"Desculpe-me, Léo, mas é herança de família e passaremos para as gerações seguintes, com certeza... sem intenção de venda, sem nenhuma dúvida...".
O mundo está tão descompromissado, é difícil as pessoas darem valor as suas próprias histórias, este é um bem incalculável! Meus parabéns, Marina!
"Você não imagina a emoção do momento no qual meu sogro recebeu de volta o jogo, na noite de Natal... suas lágrimas de carinho foram inexplicáveis... não teve palavras para agradecer, apenas chorou e muito... comoveu todos os familiares presentes... além de contar, que foi em uma noite de natal há mais de cinquenta anos atrás, que desembrulhou o mesmo jogo que seu pai (bisavô do meu filho) lhe presenteou após ter recuperado também naquela época...
Agradeço a indicação que ficará registrada pelo resto de nossas vidas... a família Rappl agradece a satisfação de fazer um avô muito feliz..."
Eu também tenho minhas histórias com as peças de xadrez ... para começar, uma muito especial. O jogo que ganhei do meu pai, no meu aniversário, em 1978, há 34 anos atrás! Meu pai faleceu pouco mais de 1 ano depois, mas esse presente eu guardo com muito carinho. São as mesmas peças que aparecem em algumas cenas do vídeo "Uma Aventura no Reino do Xadrez". Elas passearam comigo em diversos torneios pelo Brasil. Será que o meu filho saberá dar valor a elas? Bem, este é um dos motivos pelo qual estou contando tudo isso. Pelo mesmo motivo que sensibilizou a Marina.
Depois ganhei um outro jogo de peças, no dia dos namorados, da Silvana, mãe do Pedro, em 1989.
Finalmente, meu último jogo de peças, comprei em Sófia, por ocasião do Mundial Anand-Topalov. Que recordação única!
Qual deles é o mais valioso para mim? Lógico, todos, pois cada um tem sua história, única, viva, cheia de lembranças! De qualquer forma, tenho um carinho todo especial pelo primeiro, além de ter sido uma recordação do meu pai, estudei muitos livros de xadrez com ele (Bobby Fischer, Smyslov, Capablanca, Alekhine, Tal ...).
E voce, que histórias vai nos contar? Que histórias vai deixar para os seus filhos?
Ótimo 2012 a todos! Um abraço especial ao meu amigo Dimitar Gogov.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
O Xadrez e a Neurologia
Amigos,
Bem, eu recomendo uma leitura muito interessante, "O Erro de Descartes", de Antonio Damasio, como uma introdução ao estudo desta fascinante viagem sobre esta organização cerebral. O livro pode ser polêmico, mas, como eu disse, temos que estudar, ler muito, para entender um pouquinho do que se passa no nosso cérebro, para justamente, podermos ajudá-lo logo adiante.
Como trabalho junto ao Dr Jorge Forbes no IPLA( Instituto da psicanalise Lacaniana). aproveito os recursos da psicanálise para aplica-los junto aos alunos, professores, e nas palestras.
Acho que seria legal a imagem de um tabuleiro refletido, a partir de um cérebro, em direção e contato com uma tela de computador, pois é lá que o jovem vai jogar, para ficar plugado com sua rede, que é onde ele mantém um contato horizontal, nesta nova orientação social.
(Kasparov e esposa e o dr. Ítalo Venturelli)
Terminou o Grand Slam de Xadrez São Paulo-Bilbao (parabéns aos organizadores, GM Milos e ao incansável Davi D'Israel) com a vitória do Magnus Carlsen! Torciamos para o Ivanchuck, mas acredito que o resultado foi justo pela perseverança do jovem noruegues. (Hilária cobertura no blog do Disconzi).
Aí lembrei do Esporte Espetacular que fez uma matéria com o Carlsen (veja Vida em Miniatura), sobre os super-humanos, e as novas fronteiras do cérebro.
Para quem pretende dar aulas de xadrez, taí um tema a ser estudado e entendido! A neurologia e as outras ciências derivadas dela, como a neuropsicologia, tem avançado muito sobre os benefícios de se treinar o cérebro. E qual melhor treinador que não o nosso nobre jogo de xadrez? Ou alguém duvida que o xadrez não use os diversos elos cerebrais (e quando falo isso, quero dizer desde as partes específicas, como córtex, amigdala, hipotálomo, lóbulo, como também as comunicações químicas e nervosas de transmissão e processamento de informações). Quando jogamos xadrez, não estamos fazendo cálculos, abstraindo posições, imaginando lances, analisando, deduzindo, comparando, tomando decisões?
O nosso cérebro é como um gigantesco computador, com todos os seus periféricos, cabos de comunicação, interfaces, processando informações o tempo todo, buscando arquivos na memória, calculando, distribuindo, comunicando. Por isso o xadrez é sempre utilizado para testes com sistemas de Inteligencia Artificial.
Um detalhe da matéria me chamou a atenção: Magnus, o super-humano, estaria usando outras áreas cerebrais quando joga xadrez, o que o diferencia da imensa maioria!
Lembrando, porém, que isto só se consegue com o treinamento intensivo do profissional de xadrez!
"A área de associação cerebral, localizada na região parietal esquerda do nosso cérebro, recebe as informações percebidas pelo nosso aparelho sensorial, e após coordena-las, e associa-las, da um sentido a elas, reconhecendo uma nova razão lógica, tranformando informações, em conhecimento." (Ítalo Venturelli)
Lembrando, porém, que isto só se consegue com o treinamento intensivo do profissional de xadrez!
E, claro, que passem a se interessar e ouvir mais quem realmente entende do assunto, como o doutor Ítalo Venturelli, que deu um verdadeiro show no "I Seminário de Xadrez Escolar", sabiamente oferecido pela PMSP, com o grupo da XME (Xadrez Movimento Educativo). E quem poderia apoiar mais tal evento, senão um cara chamado Garry Kasparov?
Vejam que linda imagem: as crianças das escolas da PMSP entrevistando o dr. Ítalo Venturelli com um cérebro de verdade nas mãos! Que efeitos motivadores não teriam ocorrido neste momento para as crianças ali presentes?
COM A PALAVRA, O DR. ÍTALO:
(em conversa com a jornalista Mayra Maldjian)
Faço estas palestras há muitos anos, gratuitamente, pois acredito que o xadrez é um excelente recurso pedagógico.
Quando dei aulas de pós graduação em psicopedagogia, pude comprovar este recurso.
Em SP, já há muitos anos, participo da formação dos professores de xadrez , das escolas publicas .
É um trabalho super gratificante, pois vemos a melhora da capacidade de concentração e atenção das crianças.
Digo que se transformam em pequenos detetives, pois ficam mais atentos a tudo que se passa.
Ano passado dei palestras para os professores do colégio e cursinho Anglo, pois o xadrez será colocado como matéria para o pessoal que irá prestar vestibular.
Dizemos que "com o xadrez o homem se acostuma a raciocinar sobre pressão", que é a grande questão do homem moderno.
O processo de aprendizagem acontece como se fosse uma equação matemática, onde tudo se inicia quando conseguimos despertar a atenção das crianças. Quando conseguimos isto, por determinado tempo, provavelmente ela irá se concentrar. Daí o processo vai se desenrolando, com a passagem das informações para as áreas da memória e para as áreas de associações, desenvolvendo-se assim os chamados padrões cognitivos. Esta transformação das informações ocorre quando conseguimos mostrar a razão pela qual uma informação se coordena com outra. Estes novos padrões cognitivos de conhecimento serão os facilitadores para a transformação de novas informações. Neste instante poderá acontecer a maravilha das maravilhas, o qual nosso cérebro é mestre: o milagre chamado "Dedução". O eletron que salta. Um novo conhecimento. Muito além da soma das informações anteriores. Algo novo; sensacional. A energia advinda do conhecimento, que para muitos, é o maior prazer que um ser humano pode sentir.
Todas as áreas do cérebro são estimuladas com as atividades intelectuais. No caso do Xadrez, trata-se de atividade intelectual de alto nível, pois requer análise, cálculo, deduções, e muito controle emocional. Para se tornar um bom jogador, é necessário disciplina e muito estudo. No Brasil temos excelentes jogadores, como o famoso Mequinho e atualmente o Geovanni Vescovi como exemplos.
O homem moderno perdeu sua bússola. É o que o grande psicanalista brasileiro Dr Jorge Forbes chama de " o Homem Desbussolado". Vivemos novos dias e uma nova ordem social. Utilizando estas orientações para o jogo de xadrez, percebemos que ao jogarmos, temos que coordenar as peças do tabuleiro como muitas das atividades da vida. Todos estamos sujeitos a termos que tomar decisões cada vez mais rapidamente. Em varias situações estamos ligados a varias questões acontecendo simultaneamente. Com a utilização do jogo de xadrez, as crianças e adolescentes se acostumam a permanecer raciocinando por um tempo mais prolongado. O uso do relógio que é utilizado durante os jogos ajudam neste treino.Poucas são as pessoas que conseguem continuar raciocinando, quando estão pressionados, ou quando estão com fome, com pressa ou com medo. Acontece o famoso " deu branco ". Termo comum entre os vestibulandos.
Em alguns cursinhos preparatórios para o vestibular esta sendo estudado o uso do xadrez.
Os estímulos advindos das atividades intelectuais funcionam muito bem em qualquer idade. Até na terceira idade.
Temos varias historias de jogadores de xadrez, que jogam muito bem até em idade bem avançada.
A questão dos adolescentes é a área de interesse. Os homens, permanecem interessados em competições mais avidamente do que as mulheres, por questões psíquicas e biológicas.
Com os conhecimentos advindos das novas tecnologias, como a chamada ressonância funcional, percebemos algumas diferenças no funcionamento do cérebro do homem e da mulher.
Como disse estamos aprendendo com as novas técnicas diagnosticas, e ao que parece, enquanto um garoto joga um "game" , em seu cérebro ativam-se áreas relacionadas ao prazer, diferentemente da mulher, onde se ativam as áreas da fala. Outro fato interessamente diz respeito a localização espacial , onde o homem se orienta espacialmente por imagens cartográficas, e a mulher por objetos referencias.
Regiões interessantes de serem evidenciadas, são as áreas de associação, localizadas na região parietal esquerda.
Acho que seria legal a imagem de um tabuleiro refletido, a partir de um cérebro, em direção e contato com uma tela de computador, pois é lá que o jovem vai jogar, para ficar plugado com sua rede, que é onde ele mantém um contato horizontal, nesta nova orientação social.
Quer um tabuleiro melhor que uma rave ? Impossível !!!
OBS - Fotos gentilmente cedidas pelo dr. Ítalo, com créditos para o GM Giovanni Vescovi.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
A Maior lição do mestre Ivanchuck
Amigos,
O Grand Slam de Xadrez realizado semana passada em São Paulo, foi sem dúvida o maior evento de xadrez já realizado no Brasil (que me desculpem sobre os Interzonais de 1973 e 1979 no Rio de Janeiro e as taças Cidade de São Paulo em 1978, 1979 e 1980 - esta última com a presença de Victor Korchnoi).
Desta vez, tive que reprimir meus sentimentos, não fui ao parque do Ibirapuera! Nem sempre podemos realizar todos os nossos sonhos ... mas torço para que no ano que vem, a prefeitura de São Paulo e a cidade de Bilbao presenteiem novamente os enxadristas brasileiros (e por que não, sulamericanos) com este vultuoso evento!
Ouvi pela internet os comentários do GM Gilberto Milos e do simpaticíssimo Leontxo Garcia. Leontxo, em entrevista para a "RTVE Espanha" (não deixem de ouvir esta entrevista, muito boa), noticiou o grande público que se apresentou para prestigiar o evento e a excelente divulgação da mídia. Em seus comentários, diz para que os espanhóis visitem o Brasil, de leste a oeste, de norte a sul, pois se trata de um lindo país!! Comentou também das desigualdades sociais, como infelizmente ocorrem em toda a América Latina, e que no Brasil diminuíram com o governo de FHC e principalmente de Lula! E que São Paulo é a segunda cidade do mundo com maior tráfego de helicópteros, e que os ricos vão às compras em Shoppings que tenham heliportos ... A visita do GM espanhol Paco-Vallejo a uma escola pobre na periferia de São Paulo, a convite do prefeito Kassab, levou palavras que emocionaram até os organizadores. Crianças que não tem video-games, computadores e outros eletrônicos em casa, se sentem motivadas a irem à escola pela possibilidade, entre outras, de ter aulas de xadrez.
A primeira fase do torneio foi vencida com brilhantismo pelo ucraniano Vassily Ivanchuck. Que lutador criativo! Avoado, mas um gênio!
O ponto baixo veio depois de encerrado o evento: Ivanchuck e sua esposa foram roubados a 20 metros da porta do hotel em que estavam hospedados, quando se dirigiam para pegar um táxi que os levaria para o aeroporto.
Felizmente, poucas coisas importantes ou valiosas foram levadas. Eis as palavras geniais do Chuck, para Chess Vibes, que me fizeram admirá-lo ainda mais e que me fizeram desejar o seu sucesso em Bilbao - serei seu fã daqui pra frente:
"
The most valuable thing for me was my chess set, not in terms of money but in terms of some sort of… I’ve used that chess set for many, many years. I’ve even got a wish: perhaps that chess set can somehow fall into the hands of an intelligent child, and thanks to some sort of magical properties it’ll help that child to become a famous chess player.
"
"A coisa mais valiosa para mim era o meu jogo de peças, não em termos de dinheiro, porém em termos de sorte ... eu usei estas peças durante muitos, muitos anos. Eu espero talvez estas peças possam cair nas mãos de uma criança inteligente, que leve a ela as propriedades mágicas que me ajudou desde criança a me tornar um famoso jogador de xadrez".
Boa sorte, Chuck!
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Kasparov e o I Seminário de Xadrez Escolar
Amigos,
Logo após, tivemos a execução do Hino Nacional Brasileiro. Kasparov ouviu atentamente:
Depois do discurso do Kassab, desejando muita sorte aos simultanistas, Kasparov fez seu discurso:
Finalmente, veio a esperada exibição de Kasparov.
Sem a menor dúvida, o I Seminário de Xadrez Escolar da Prefeitura Municipal de São Paulo foi um grande evento sobre Xadrez e que aconteceu entre os dias 2 e 3 de setembro. Mais de 700 professores, quatro palestras de altíssimo nível com renomados protagonistas. Ainda com a presença do prefeito de SP, Gilberto Kassab, e o secretário da Educação, Alexandre Schneider e o Grande Mestre, Giovanni Vescovi.
Mas, claro, ele também estava lá: Garry Kasparov! Ouviu o hino Nacional Brasileiro, discursou, e jogou uma simultânea contra 20 alunos, com muito vigor. Uma aula! Não facilitou em momento algum, jogou como sempre, muito sério e concentrado, ensinando que devemos levar a nossa profissão a sério sempre, sem vacilar. Afinal, senão ele não seria Kasparov!
Então, vamos tentar descrever um pouco deste inesquecível evento. Muito bem organizado, e quero aqui deixar meus agradecimentos ao Egnon, a Sandra e a professora Eugênia. Peço desculpas pela baixa qualidade dos vídeos, pois eu estava longe e com o zoom da câmera, era inevitável a imagem balançar um pouco. O som também deixa a desejar. Bem, não fui preparado para isto, apenas quero tentar deixar este testemunho para quem não pode participar.
Da estação do metrô Tietê, lá estavam os micro ônibus que nos transportaram até o Anhembi. Conhei o professor Mario, que ficou encantado com o xadrez e nos fez diversas perguntas.
No Anhembi fomos recebidos com o material (crachás, blocos de notas, canetas e pasta alusiva ao evento) e um belo café da manhã.
Um coral recebeu os seminaristas. Seguem os dois vídeos abaixo:
Logo após, tivemos a execução do Hino Nacional Brasileiro. Kasparov ouviu atentamente:
Depois do discurso do Kassab, desejando muita sorte aos simultanistas, Kasparov fez seu discurso:
A primeira palestra foi do professor doutor Antonio Villar Marques de Sá, que contou um pouco de como fez seu doutorado em Paris, trabalhando primeiramente como garçon. Para minha surpresa, em meio a sua palestra, ele colocou um slide com a capa do meu vídeo, "Uma Aventura no Reino do Xadrez". Os amigos próximos de mim no momento (Edmundo, Rosa) me apontaram dizendo que eu estava ali na platéia. Confesso que estava muito envaidecido e orgulhoso, de alguma forma estava contribuindo para o evento.
Aliás, devo ao Villar mais um autógrafo do Kasparov, desta vez no livro "Xeque-Mate". O Villar só conseguiu por muita perseverança, o "Ogro de Baku" se esgueirava fugindo de todos (com o seu "segurança" Giovanni Vescovi, que não permitia o assédio ao ex-campeão, dizendo que ele queria voltar logo ao hotel). O Villar conseguiu o autógrafo já com o Kasparov dentro do carro ...
A palestra do Villar contou muito da história do xadrez, dos trabalhos científicos que tem sido registrado, das cartilhas, enfim, dos diversos esforços de se implantar o xadrez nas escolas brasileiras (o Villar foi o palestrante em Curitiba em 1993, no Congresso da FIDE e escreveu para a revista Preto & Branco uma série de artigos que tiveram grande repercussão no Brasil sobre Xadrez Escolar).
Em seguida, a palestra do Dr. Ítalo Venturelli, excelente, arrancando por diversas vezes gargalhadas da platéia, falando sobre os transtornos de deficite de atenção e hiperatividade, dos benefícios do xadrez no desenvolvimento do raciocínio, um pouco sobre neurologia e até trouxe um cérebro para mostrar.
Finalmente, veio a esperada exibição de Kasparov.
Infelizmente, minha máquina esgotou a memória ao final da simultânea, e eu não tinha como descarregar os vídeos, não podendo gravar as pelestras do Jaime Sunye e do Uvencio Blanco, no dia seguinte.
Mas posso contar que a palestra do Sunye mostrou ao público os dados da trajetória do projeto de xadrez no Paraná; o projeto piloto, seus erros e acertos; as implementações, como por exemplo com a área de informática da UFPR; ao final respondeu inúmeras perguntas sobre os mais diversos temas, inclusive do encerramento da carreira de jogador de xadrez. Lembrando, o Jaime também contou um pouco do doutorado do Wilson da Silva e sua tese de mais de 400 páginas (!) sendo um dos maiores trabalhos feitos sobre xadrez no Brasil, e também contou um pouco sobre os seus projetos com o MEC. Importante para quem almeja realizar um projeto sobre xadrez!
A última palestra foi do Uvencio Blanco, que abordou o xadrez escolar dentro da FIDE. As prioridades iniciadas e desenvolvidas com o xadrez escolar, os congressos, os planos para o futuro. Com muito senso de humor, perguntou à plateia: por que mulheres não gostam muito de jogar xadrez? "Ora, durante a partida a regra manda que fiquemos quietos!" O Uvencio é venezuelano, e foi inevitável uma pergunta sobre o Hugo Chaves. A resposta, de que Chves teria se recusado a jogar uma simultânea, mas que depois, quando passou a ser governo, deu a missão aos seus ministros de que implantassem o xadrez nas escolas!
Bem, um evento grandioso, importante, um marco para a retomada do xadrez escolar no Brasil.
Uma pergunta ficou do início ao fim do seminário: quem joga xadrez fica inteligente ou já é inteligente quem joga xadrez? A questão fica para um próximo seminário ...
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